Percepção de cores em humanos e outros primatas

Ricardo Mucury Filho

Independente de você ser ou não um fã do Pink Floyd, provavelmente você já se deparou com inúmeras referências à capa de um dos álbuns mais conhecidos da banda (Figura 1). Pois bem, essa imagem serve para ilustrar, de forma simplificada, que a luz visível (parte do espectro de energia eletromagnética que nós humanos somos capazes de perceber) pode ser decomposta em cores. Cada cor, por sua vez, corresponde a uma parte da luz com um comprimento de onda específico (Figura 2).

Figura 1. Capa do álbum “The dark side of the moon”. Retirado de: https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Dark_Side_of_the_Moon
Figura 2. Espectro de cores e seus respectivos comprimentos de onda (distância entre os picos das ondas). Retirado de: https://www.sciencelearn.org.nz/resources/47-colours-of-light

Mas como somos capazes de discriminar esses comprimentos de onda? Para isso, nossos olhos possuem células especializadas (cones), que contém pigmentos visuais (moléculas sensíveis a diferentes faixas de comprimento de onda). Sendo assim, os tipos de pigmentos que estão presentes nos cones são os principais determinantes da capacidade de distinguir cores! A visão dos mamíferos em geral baseia-se na presença de dois pigmentos (dicromacia): um deles (S) é sensível a ondas de comprimento curto (correspondentes a faixa do azul do espectro visível), enquanto o outro (M) é sensível a ondas médias (na faixa do verde). O grupo dos primatas se diferencia dos demais mamíferos por ser o único com espécies (incluindo os humanos) com visãotricromata. A tricromacia baseia-se na presença de um terceiro pigmento visual (L), sensível à luz na faixa do vermelho (ondas longas). É graças ao conjunto dos pigmentos S, M e L que as espécies de primatas tricromatas são capazes de perceber uma variedade maior de cores. Estima-se que podemos perceber 1 milhão de tonalidades diferentes! A Figura 3 compara essas duas formas de ver o mundo (dicromacia e tricromacia).

Figura 3. Contraste entre tricromacia (à esquerda) e dicromacia (à direita). Os gráficos representam as faixas de comprimento de onda à qual cada pigmento visual presente é sensível. As imagens ilustram a visão tricromata (à esquerda), contrastando com uma simulação de como seria a visão dicromata correspondente. Figura adaptada a partir de figuras originais de Carvalho et al. (2017) e Jacobs e Nathans (2009).

Curiosamente, por uma questão genética, a tricromacia não ocorre do mesmo modo entre os primatas, diferindo entre os Catarrhini (grupo que inclui macacos encontrados na Europa e na Ásia, além de gorilas, orangotangos, chimpanzés e humanos) e os Platyrrhini (grupo que abrange as espécies de primatas do continente americano, como o macaco-prego, o bugio e o muriqui). Em ambos os grupos, o gene que codifica o pigmento para comprimento de onda curto (faixa do azul) encontra-se em um cromossomo não-sexual. A diferença está nos genes que codificam os pigmentos para comprimentos mais longos (correspondentes à faixa do verde ao vermelho), que se encontram no cromossomo X. Nos Catarrhini, cada cromossomo X tem dois genes para esses pigmentos, logo tanto machos (XY) como fêmeas (XX) possuem três pigmentos visuais e são tricromatas. No caso dos Platyrrhini a questão é um pouco mais complicada, pois para esses pigmentos existe apenas um gene em cada cromossomo X, com várias formas alternativas (alelos). Cada alelo, ou forma do gene, codifica um tipo de pigmento sensível aos comprimentos de onda mais longos. O resultado disso são populações mistas, compostas por indivíduos com formas distintas de visão de cores: os machos são sempre dicromatas e as fêmeas, dependendo da combinação de alelos de seus cromossomos X, podem ser dicromatas ou tricromatas! Caso todo esse papo genético tenha ficado confuso demais, a figura 4 ajuda a explicar esse funcionamento.

Figura 4. Base genética para a tricromacia nos primatas. Figura adaptada a partir de figura original de Jacobs e Nathans (2009).

Resumindo, a visão de cores à qual estamos tão acostumados é uma capacidade bastante particular, nos diferenciando da maioria dos outros mamíferos, e, mesmo entre os primatas, não é algo tão óbvio assim.

Sobre o autor:

Ricardo Mucury Filho. Doutorando da UnB, voltado para pesquisa com primatas e comunicação vocal. Fascinado por comportamento animal, está na busca por aprender mais e compartilhar conhecimento sobre esse tema. Enquanto isso navega pela vida com o rock dos anos 60/70 como trilha sonora.

Para saber mais:

Carvalho, L. S., Pessoa, D. M. A., Mountford, J. K., Davies, W. I. L., & Hunt, D. M. (2017). The genetic and evolutionary drives behind primate color vision. Frontiers in Ecology and Evolution, 5(April), 1–12. https://doi.org/10.3389/fevo.2017.00034

Kawamura, S. (2016). Color vision diversity and significance in primates inferred from genetic and field studies. Genes and Genomics, 38(9), 779–791. https://doi.org/10.1007/s13258-016-0448-9

Jacobs, G. H., & Nathans, J. (2009). The evolution of primate color vision. Scientific American, 300(4), 56–63. https://doi.org/10.1038/scientificamerican0409-56

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